HISTÓRIA

 

     Nasci aos dezessete dias do mês de outubro do ano de mil novecentos e setenta, às onze horas e vinte minutos, na cidade de Caruaru, no agreste pernambucano. Era um sábado e o país ainda comemorava a conquista de mais um título de campeão da copa do mundo de futebol, o tri. Além do tri de futebol, Seu Zé Vicente e Dona Taninha, meus pais, estavam comemorando um outro tri, sou o terceiro filho do casal. Me criei no bairro de São Francisco, popularmente conhecido como o bairro da Rua Preta, é interessante ressaltar que no bairro não existe nenhuma rua com esse nome, mas, existem várias explicações etimológicas para isso, segundo narram os historiadores. Em meio ao ambiente com características ainda rurais, mas já ganhando formas urbanas, fui crescendo na simplicidade de uma vizinhança onde todos se conheciam, ao som das carroças puxadas por burros e os berros dos seus condutores, o fascinante universo da feira onde Tia Judite e Divinha compravam os bonecos de barro e as minhas frutas preferidas, na tranqüilidade do quintal da casa de Dona Lourdes, minha avó materna, pelas ruas que ainda não eram calçadas e os pés da maloqueirada corriam livres, descalços, atrás de uma bola canarinho, dos programas das rádios AM, freqüência que curto até hoje e dos discos de Elvis Presley, Renato e Seus Blue Caps, Benito de Paula, Trio Nordestino, Donna Summer e tudo o mais que a família ouvia lá em casa.
     Comecei a tocar nas bandas marciais das escolas onde estudei na infância e adolescência, mas o gosto pela música, costumo dizer, já trazia comigo desde que eu estava no bucho da minha mãe. Ela estudava acordeom e gostava muito de desenho e pintura. Meu pai, fã de Jackson do Pandeiro, Núbia Lafaiete, dos violeiros repentistas e de uma boa pescaria, talvez isso explique de onde vem a minha calma, tranqüilidade e paciência.
     Iniciei meus estudos de violão clássico no CEMO (Centro de Educação Musical de Olinda) em 1987, mas não cheguei a concluir, precisava trabalhar e aí, decidi voltar a morar em Caruaru. De volta a minha terra natal, comecei a tocar em bares, trabalhei na feira da sulanca, mas sempre dei andamento aos meus estudos e em 1996 me formei no curso de Ciências Sociais na FAFICA (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Caruaru). Creio que isso foi fundamental para o trabalho de arte-educador que anos mais tarde iria desenvolver no nosso Projeto de Iniciação Musical e em outros Projetos Sócio-culturais com crianças e adolescentes de bairros carentes de Caruaru.
     Subi ao palco profissionalmente pela primeira vez em 1989 tocando guitarra na banda do cantor Ezequias Rodrigues. Passei a tocar Baixo alguns anos depois e acompanhei, como costumamos dizer por aqui, “uma tuia de gente!” Elifas Júnior e Azulão foram alguns dos que acompanhei inúmeras vezes.
     Meu primeiro CD, “Menino de barro” foi lançado em 1999. No ano 2000, o segundo CD, “É Bafunga...” e em 2001 o terceiro CD, “Coisas da terra”. Nesses três primeiros discos eu ainda era acompanhado pela Banda Farra e Forró.
     Em 2002, em parceria com o Produtor e Design João Bento, figura que viria a ser peça fundamental dali pra frente no meu trabalho e se tornaria um dos meus melhores amigos, produzi e arranjei o CD “O Forró de Heleno dos Oito Baixos” e no mesmo ano com um projeto elaborado por João, fiz a minha primeira turnê internacional. Era mais que um projeto, na verdade, era um encontro da música do Nordeste do Brasil com a música do Sudeste da França. Estávamos eu, Heleno dos Oito Baixos e a dupla francesa “Fabulous Trobadors” durante dois meses fazendo e tocando Forró na França. Além das apresentações com os “Fabulous Trobadors” em cidades como Toulouse, Paris e Lyon, também participei dos arranjos e da gravação do primeiro CD do grupo francês “Bombes 2 Bal” que canta e toca Forró.  De volta ao Brasil, participamos do Festival de Inverno de Campos do Jordão em São Paulo.
     Em 2003 lancei o “Moleque da Rua Preta”, meu quarto CD, o primeiro solo e fundei com o percussionista Marconiel Rocha o P.I.M. (Projeto de Iniciação Musical Jacinto Silva), que como o próprio nome diz, inicia crianças e adolescentes no caminho musical e que foi batizado com o nome desse artista devido à preocupação que ele próprio tinha com a continuidade do estilo que cantava e que a cada ano que passava via diminuir e quase desaparecer. É um projeto sem fins lucrativos que tem como um dos objetivos ensinar as crianças a importância da música dentro de um contexto sócio-econômico-cultural e fazer com que elas conheçam o máximo possível a arte dos mestres da música caruaruense e que perpetuem a herança deixada por eles.
     Em 2004, convidado pelo cantor Silvério Pessoa, participei de uma turnê internacional levando a música de Caruaru para o mundo, tocando e cantando na França, Espanha, Bélgica, Alemanha, Suíça, Dinamarca e Malásia.
Em 2005 voltei à Europa em turnê entre junho e agosto e em dezembro do mesmo ano participei do Festival Africolor, em Paris, dividindo o palco com o acordeonista René Lacaille, africano da Ilha da Reunião. Também em 2005 compus a trilha sonora, fiz direção e produção musical do espetáculo infantil “Amarelinha” que em janeiro de 2006 teve sete indicações, inclusive melhor música, no festival de teatro “Janeiro de Grandes Espetáculos” em Recife.
     Ainda em 2006, fiz a produção e direção musical da primeira apresentação da Orquestra do Forró de Caruaru e depois da temporada junina, viajei em turnê durante o mês de julho passando pela Noruega e França para lançar na Europa pela gravadora Suave Music o disco “Moleque da Rua Preta”.  Em setembro lancei no Brasil o disco “Outra via”, um projeto onde a minha música encontra à poesia de Dja Vasconcelos e Demóstenes Félix ambos poetas também caruaruenses.
     E assim a vida continua, cada dia novas oportunidades, novas conquistas e muito aprendizado. A nossa música ganha asas sem perder as raízes!.